É verdade. Faz algum tempo já.
Fiquei pensando se devia falar com você ou não. Ainda não tenho bem certeza se decidi pelo que é certo, mas como até o que é certo tantas vezes se mostra confuso e impreciso, revolvi escrever meio que por impulso mesmo. Sei que uma das coisas que mais a incomodavam era justamente essa impulsividade, essa inconsequência adolescente, e você sabe melhor do que ninguém - talvez até do que eu mesmo - o quanto tentei mudar e agir de forma diferente, o quanto respirei fundo e caminhei para um lado enquanto meu espírito empurrava-me para outro, e o quanto eu roubei de mim mesmo a fim de agir de maneira que me tornasse melhor, ou que pelo menos você achasse melhor, e que, no final, sempre, acabava por nada adiantar, já que os padrões de comportamento que você estabeleceu são impossíveis de serem seguidos, mesmo por você, o que nos tornava companhia tempestuosa e aflitiva um para o outro durante todo o tempo em que estávamos, e estivemos, juntos.
Mas hoje eu quero lembrar de outras coisas. Antes que pense que pretendo, com isso, tê-la de volta, faço questão de dizer que não é o caso. Não quero. Mesmo. Penso em mim como estou agora e tento projetar como seria se você estivesse aqui e, desculpe a franqueza, é quase um alívio saber que não está. Mas dizer que o que tivemos foi apenas um acúmulo de cansaço também não seria justiça: fomos intensos. Talvez intensos demais. Não arrependo-me de nada, ainda que, sinceramente, duvido que aguentasse um dia a mais.
Quero lembrar de quando fomos àqueles lugares perdidos em meio à mata e à chuva, descobrindo espaços que pareciam preparados justamente para recompensar aqueles que saíram em sua busca. Quero lembrar de quando ouvíamos música e bebíamos vinho madrugada adentro, dando novas interpretações para as letras das músicas de maneira que todas elas pareciam contar a nossa história. Quero lembrar de quando pegávamos o carro e saíamos sem destino, tornando, assim, alcançáveis todos os lugares do planeta. Quero lembrar de quando ficávamos sozinhos e nos perdíamos um no outro, sem pressa, despreocupados do mundo que insistia em suas mazelas porta afora, sabendo que nada era mais importante do que o que tínhamos ali.
Sei de tudo o que vivemos. Sei do tanto que vivemos.E sei que você, à essa hora, coça a cabeça procurando uma razão, qualquer que seja, que justifique estas minhas palavras. Mas aí está a grande magia da qual eu já estava me esquecendo: nem tudo precisa seguir a lógica.
Deixo para outro momento uma despedida mais emocionada, mesmo porque sequer sei se essas palavras vão mesmo encontrá-la. Se sim, receba meu beijo carinhoso. Se não, tudo bem: como tantos outros sentimentos que se apresentaram, guardo também esse, como tesouro que não há de conhecer outro dono.
Talvez um dia, quem sabe, entre um gole e outro, possamos reviver idos tempos.
Ainda que eu ache que não devamos contar com isso.
•••
Publicado por Renato Alt
Fiquei pensando se devia falar com você ou não. Ainda não tenho bem certeza se decidi pelo que é certo, mas como até o que é certo tantas vezes se mostra confuso e impreciso, revolvi escrever meio que por impulso mesmo. Sei que uma das coisas que mais a incomodavam era justamente essa impulsividade, essa inconsequência adolescente, e você sabe melhor do que ninguém - talvez até do que eu mesmo - o quanto tentei mudar e agir de forma diferente, o quanto respirei fundo e caminhei para um lado enquanto meu espírito empurrava-me para outro, e o quanto eu roubei de mim mesmo a fim de agir de maneira que me tornasse melhor, ou que pelo menos você achasse melhor, e que, no final, sempre, acabava por nada adiantar, já que os padrões de comportamento que você estabeleceu são impossíveis de serem seguidos, mesmo por você, o que nos tornava companhia tempestuosa e aflitiva um para o outro durante todo o tempo em que estávamos, e estivemos, juntos.
Mas hoje eu quero lembrar de outras coisas. Antes que pense que pretendo, com isso, tê-la de volta, faço questão de dizer que não é o caso. Não quero. Mesmo. Penso em mim como estou agora e tento projetar como seria se você estivesse aqui e, desculpe a franqueza, é quase um alívio saber que não está. Mas dizer que o que tivemos foi apenas um acúmulo de cansaço também não seria justiça: fomos intensos. Talvez intensos demais. Não arrependo-me de nada, ainda que, sinceramente, duvido que aguentasse um dia a mais.
Quero lembrar de quando fomos àqueles lugares perdidos em meio à mata e à chuva, descobrindo espaços que pareciam preparados justamente para recompensar aqueles que saíram em sua busca. Quero lembrar de quando ouvíamos música e bebíamos vinho madrugada adentro, dando novas interpretações para as letras das músicas de maneira que todas elas pareciam contar a nossa história. Quero lembrar de quando pegávamos o carro e saíamos sem destino, tornando, assim, alcançáveis todos os lugares do planeta. Quero lembrar de quando ficávamos sozinhos e nos perdíamos um no outro, sem pressa, despreocupados do mundo que insistia em suas mazelas porta afora, sabendo que nada era mais importante do que o que tínhamos ali.
Sei de tudo o que vivemos. Sei do tanto que vivemos.E sei que você, à essa hora, coça a cabeça procurando uma razão, qualquer que seja, que justifique estas minhas palavras. Mas aí está a grande magia da qual eu já estava me esquecendo: nem tudo precisa seguir a lógica.
Deixo para outro momento uma despedida mais emocionada, mesmo porque sequer sei se essas palavras vão mesmo encontrá-la. Se sim, receba meu beijo carinhoso. Se não, tudo bem: como tantos outros sentimentos que se apresentaram, guardo também esse, como tesouro que não há de conhecer outro dono.
Talvez um dia, quem sabe, entre um gole e outro, possamos reviver idos tempos.
Ainda que eu ache que não devamos contar com isso.
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