Ele voltou à rua onde morou na infância.
Lembrava do prédio amarelo, das janelas marrons e dos carros velhos, imóveis há décadas, estacionados sobre a calçada. Lembrava da portaria e dos degraus de granito, lembrava da textura das paredes e do cheiro frio. Lembrava da porta escura do apartamento, lembrava do 601 em metal envelhecido.
Tocou a campainha, constrangido, pediu para olhar.
Não estava lá.
Caminhou para a praia, desceu a escada de pedra e alcançou a areia. Molhou os pés na água, já que não mergulharia, e deixou que as minúsculas ondas lhe molhassem a barra da calça.
Não estava lá.
Foi à boate da sua adolescência, hoje um restaurante, e deteve-se frente à fachada. De olhos fechados, pôde escutar mais uma vez a música alta, e lembrar da penumbra, e do esforço para se fazer ouvir em meio à multidão e aos hormônios.
Sorriu, e mais nada.
Passou por seu colégio: já não havia mais o pátio onde corria, e mesmo a mangueira intocável dera lugar a mais uma vaga no estacionamento. O azul do prédio desvaneceu, veio um cinza arrogante, pretenso símbolo de tradição e modernidade.
Saiu dali e procurou pelas praças, e pelo mercado, e pelas ruas.
Já não encontrava mais.
Começou a chuva.
Agora, talvez, outro dia.
ººº
29 de set. de 2008
:: Aurora ::
22 de set. de 2008
:: Distopia ::
Ela acordou enquanto ele ainda dormia a sono solto: àquela hora, apenas os sons dos carros que eventualmente passavam, perdidos, procurando algum destino.
Sentou-se na cama para vê-lo, suspirou ao notar o lençol movendo-se ao ritmo da respiração. Levantou-se e, nua como estava, parou à porta para pensar, e pensou, e caminhou em absoluto silêncio, e vestiu-se; as roupas, quando horas antes foram jogadas no chão, desarrumaram os sapatos sob a cama, que ela agora reorganiza cuidadosamente.
E haviam derrubado o que estava sobre a cômoda, e derramado uns tantos perfumes, e arrastado o móvel, tal era o ímpeto, a paixão, a carência, a noite.
Mas agora, ela seca do chão o perfume, e recoloca cada frasco em seu lugar, e devolve suavemente a cômoda à posição original. As toalhas caídas no banheiro, dobra e recoloca nos ganchos. Ajeita os vidros. Vai à cozinha e tira das mesas e das cadeiras e das louças qualquer rastro de si.
Pensa no que fez, olha o que fez. Bom o suficiente.
Pendura a bolsa no ombro e, em silêncio, passa pela porta. Fecha, solenemente.
Em seu quarto, ele se vira, se ajeita, segue em seu sono.
E ela jamais estivera ali.
ººº
15 de set. de 2008
:: 3min ::
Olá, querido.
Como têm sido seus dias?
Espero que tenha chegado bem. Hoje foi tudo muito corrido, cheguei exausta às 21h30 e, depois de assistir televisão, fui tentar dormir. Revirei-me na cama por talvez uma hora, tentei ler alguma coisa, mas, ao contrário de relaxar, estava me percebendo mais tensa a cada linha. Naveguei por um ou outro site, vi alguns e-mails e, claro, escrevi este para você; quando tentei lhe telefonar à tarde, seu celular estava desligado.
Deixei o jantar no microondas; como sei que vai ler este antes de comer, aproveito para pedir que feche a porta da cozinha antes de esquentar a comida, por causa do barulho. Não se esqueça de jogar a embalagem no lixo, para evitar que o cachorro acabe comendo alguma sobra.
Novamente ligaram do colégio: ao que parece, Ana não está se saindo bem em algumas matérias, tem se mostrado arredia e pouco sociável. A professora pediu que fôssemos conversar, mas expliquei que era impossível, por não termos tempo. Pensei em procurar um profissional para falar com Ana e tentar descobrir o que a está tornando tão fechada. Encontrei um e agendei por telefone a primeira consulta: segunda-feira, logo após o colégio, às 14h. Serena a levará lá. Se esse horário tornar-se regular, precisaremos remanejar as aulas particulares.
No próximo final de semana será a comemoração do aniversário do papai, no sábado. Imagino que você vá estar em viagem, mas caso não esteja, gostaria da sua presença. Eu mesma precisei desmarcar alguns compromissos à tarde para poder passar uma ou duas horas lá; seja como for, não deve estender-se por muito tempo.
Quando entrar no quarto, por favor, não acenda a luz. Como sabe, preciso acordar muito cedo. Vamos tentar nos falar durante o dia.
Um beijo.
°°°
8 de set. de 2008
:: Senóide ::
Saí à noite,
e deixo tudo para trás, a cada passo.
Sinto o vento no rosto,
mas já não me traz perfume algum.
Indiferença, talvez.
Ouço carros e buzinas e conversas perdidas
e música em algum bar,
mas já não confundo a voz, já não a ouço em meio ao burburinho.
Indiferença, talvez.
Sinto o vento no rosto.
Mas não me sussurra um nome.
Vejo a imagem, impressa em meus sentidos, desvanecer.
Indiferença, talvez.
Aperto o passo: na esquina, a redenção.
Confuso demais, por tempo demais; agora, adiante.