Acordo em um quarto branco. Não há janelas ou portas. Visto uma roupa branca, de peça única, e tenho os braços estendidos ao longo do corpo. Estou afundado em um tapete que ocupa todo o recinto; felpudo, alto, atrapalha minha visão do que há ao redor. Minhas mãos tocam minhas pernas, mas apenas o sei: não sinto.
Na verdade, nada sinto.
Percebo, então, que nenhum pensamento me ocorre. Nenhum lúcido, ao menos. Forço-me a pensar, a tentar entender, e o que me vêm são apenas os olho dela, em intensa escuridão, ébrios como os meus, em frente a um portão perdido na madrugada do Rio.
No teto, um ventilador gira esforçado, incapaz de gerar qualquer vento, estalando em um ruído monótono, indiferente.
Tenho a garganta seca.
Dói-me o pescoço. Tento colocar-me de pé, mas as pernas não me obedecem. Toco meu rosto, e pareço diferente: olhos, sobrancelhas, boca; nada é meu. Entrego-me, como já antes o fizera, aos cuidados da lembrança que tenho, à lembrança dela, ainda que fugidia, sorrateira. São dela meus pensamentos, que perdem-se na longuidão dos seus cabelos negros, que me envolvem e roubam-me a sanidade.
Já não há sanidade.
Deito-me de novo, sob o ar abafado, enevoado e perfumado: conheço o cheiro. Leva-me ao Hyde Park, leva-me à Camden. Fala-me, talvez, de Victoria Secret´s. Sorrio e deixo-me envolver, submergir.
Se é sonho, enfim, escolho não acordar: este, não há quem me possa roubar.
...
Publicado por Renato Alt
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