Eu sei que os remédios vão acabar fazendo efeito mais cedo ou mais tarde, nem que seja por teimosia... também vai ter a terapia e tal, mas sei lá, sabe?
Tenho ocupado minha cabeça sim, mas acontece que isso me abate muito. É o que eu falei, preciso me agarrar às pessoas que gostam de mim, em todas elas, por que estou naquela corda e não sei se caio ou se ando, porque ainda não achei meu equilíbrio.
Procuro luz em algum lugar, mas nem ao menos sei por onde começar, então o caminho permanece escuro demais, por tempo demais, e me sinto andando por um corredor com os braços abertos, tentando tocar as paredes e sentir que não estou perdido nesse vácuo sem cheiro, sem cor, sem chão.
Há dias melhores, sim, e neles tudo parece ganhar novas cores, ou ao menos mostrar as que sempre estão lá mas que não consigo ver. Nesses dias me engano, e sei que me engano, porque digo a mim mesmo que a partir de agora minha atitude diante da vida vai ser outra, já que ela novamente me parece cheia de oportunidades e de pessoas a conhecer, já que aqueles que encontro na rua me passam a impressão de sorrir ao me ver e não mais de cochichar pelos cantos depois que passei.
Nesses dias, de tão bem que me sinto, penso já não precisar de ajuda ou mesmo dos tais remédios, chego a me sentir meio idiota por em algum momento ter julgado precisar deles. Simplesmente me deixo planar pelos dias, flutuar, como fazem os pássaros ao encontrar uma térmica, e tudo parece pequeno, de um jeito bom, uma vez que o horizonte ganha mais espaço, mais claridade e mais ar, e a sensação de leveza e felicidade é tanta que se torna quase insuportável.
Mas então vêm os dias maus, e passo a odiar os dias bons, passo a culpá-los por me sentir assim novamente e me deixo cair na cama e chorar e dormir, em uma completa e absoluta certeza da nulidade da minha existência, plenamente consciente da minha completa e irrevogável ansiedade por não ter que ser; e já não quero música, ou telefonemas, ou amigos ou comida ou banho ou o qualquer coisa. Fico com os olhos abertos em frente à TV, mas se alguém perguntasse o que estava assistindo, nem ao menos saberia responder. Nessas horas me vêm pensamentos que não quero ter, sobre coisas que não quero fazer, mas que ao mesmo tempo parecem tão confortáveis, tão serenas, tão detentoras de um alívio total e definitivo que não sentir-me atraído por elas é inevitável. Então antes que tomem conta de mim, bebo vinho e adormeço novamente, e fujo durante algumas horas.
Não sonho. Sei que dizem que todos sonham e apenas não lembram, mas tenho convicção de que sou a exceção à regra, de que sou eu quem garante que todos os outros sonham, justamente por confirmá-la. Acordo suado, sobressaltado, e apesar de não sair do quarto há dias, levo eternos segundos para situar-me novamente, para entender onde estou. E enfim entendo, e lembro dos porquês. Mas então, do nada, sem motivo, vêm os dias bons. Os odiosos dias bons. Entende?
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