Quando chegou, não havia ninguém à sua espera no aeroporto: todos ocupados demais trabalhando ou buscando os filhos aqui e ali, ou com gente em casa ou sem carro. Tudo bem, pegaria um táxi. As cores da cidade eram outras, ainda que tudo fosse o mesmo. Ele passava pela via expressa com o olhar perdido na janela, enquanto o motorista fazia as perguntas de praxe a respeito de onde vinha seu passageiro ou praguejava sobre os políticos de ocasião e, quando sobrava tempo, sobre a própria mulher, que não entendia por que é que ele ficava até tão tarde rodando por aí e que convencera a si mesma de que havia rabo-de-saia nessa história mal contada sobre trabalho e horas a cumprir. Esperava que alguns amigos o visitassem à noite; afinal, mantivera o mesmo endereço: ainda que distante, e sabendo a casa vazia, sentia que era seu elo com o que deixara ali, com aqueles que deixara ali, quando tão de repente viu-se ausentar por dias que, quando menos percebeu, haviam transformado-se em meses e, logo, em anos. Talvez viessem. Ainda que, agora, estivessem todos casados e conformados, ainda que tenha ouvido mais de uma vez que “os tempos agora são outros” e que era preciso, afinal, assentar o espírito e deixar a vida seguir seu curso. Voltara para ver o quanto ainda havia dele ali. Fechou a porta do carro agradecendo a corrida e caminhou lentamente, deixando-se deter, então, por alguns instantes, em frente ao prédio. Não havia rostos conhecidos entre aqueles que desviavam dele na calçada, e mesmo o ruído das crianças no colégio ao lado parecia distante, perdido no tempo. Com um suspiro profundo e uma tentativa de sorriso esforçando-se por despontar em seu rosto, avançou.
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