Acordou naquele dia quando já não queria falar com ninguém; há dias não se ouvia sua voz. Já não acessava msn, já não lia seus e-mails, e até o momento em que o desligou, já não atendia mais as chamadas no telefone.
Em casa, sobrara muito pouco: a geladeira vazia, como a despensa, e mais um tanto de coisas que ficariam ali até que chegasse o dia, se chegasse, em que novamente seriam usadas. As contas estavam pagas, as luzes apagadas, a cama arrumada. Sobre ela, a mochila, e nela, poucas roupas, a máquina fotográfica, algum dinheiro. Passaporte novo. Descompromisso.
E não mais, a partir de agora, aquelas pessoas, e aquelas coisas, e aqueles dias que insistem em passar sem trazer nada de novo. E não mais os carros, e os programas humorísticos com suas risadas enlatadas, e a comida congelada no microondas. E não mais as vozes que lhe chamavam de volta ao mundo real, como um coral cinza e dissonante, anônimo, inorgânico; e não mais a sinfonia de buzinas e de elevadores e de caixas registradoras e de esteiras mecânicas das academias.
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