18 de fev. de 2008

:: Volts :: REP

Naquele dia, e ninguém até hoje sabe o porquê, nada funcionava. Nem computadores, nem celulares, nem elevadores, nem carros, nem televisão: nada. A certeza veio logo nas primeiras horas da manhã, quando, atrasados, já que os relógios pararam em plena madrugada em algum minuto entre as três e as quatro horas, foram todos para o banho: água fria, nenhuma luz. Chegaram à calçada, e nela à certeza de que algo mais estranho acontecia: pessoas andando sem rumo, carros largados no meio das ruas, muita inquietação. Falando uns com os outros, souberam o que já sabemos: nada funcionava. E aí, de repente, deram-se conta das pessoas com quem não falavam, da família que não viam há tempos (ainda que, em muitos casos, vivessem sob o mesmo teto), dos amigos que seguiram caminhos diferentes; tudo por causa de uma simples e imediata questão, ou seja, como é que estariam. Claro, houve quem julgasse ser o fim do mundo. Quem julgasse ser invasão alienígena. Quem julgasse ser alguma coisa orquestrada pelos Estados Unidos. Quem julgasse qualquer coisa. Pouco a pouco, foram se encontrando: os vizinhos, cujos nomes era o máximo que sabiam, parentes que viviam próximos e saíram uns à procura dos outros, e desconhecidos que, de repente, passaram a ter nome, e cor, e rosto, e passado, e, se houvesse para todos, também futuro. E como num chamado comum, foram caminhando em direção à praia, e conversaram sob um sol de verão que, misericordioso, poupava-os de um calor mais intenso. Houve muitos sorrisos. Muitas lágrimas reconciliadoras. Apertos de mão e tudo o mais que, diante da incerteza do amanhecer de um dia seguinte, parecia o correto a fazer. E assim, em um vermelho fulgurante, o sol escondeu-se no mar. E houve silêncios e suspiros. Então, com os mesmos argumentos que justificaram sua parada, tudo voltou a funcionar: foram os postes das ruas que, silenciosos, deram o aviso. A TV, agora, tinha muito a explicar: milhares de teorias, suposições, especulações. Mas, surpreendentemente, muito poucos a quem fazê-lo. Os telefones, por sua vez, trasmitiram mais palavras do que jamais haviam feito. E quando chegou a noite daquele dia, todos deitaram, e dormiram e sonharam. E , até hoje, ninguém sabe o porquê. ...

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